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terça-feira, 22 de junho de 2010

NOSSAS CONTRADIÇÕES



Dizem por ai que tudo anda globalizado, falam em tecnologia como algo comum na vida de qualquer cidadão. Porém:

Dona Maria não sabe que aquele pedaço de plástico com uma estranha faixa preta que ela carrega na bolsinha preta de couro antigo junto a um amarelado papel riscado com alguns números é um cartão magnético da sua conta bancária. Explicar-lhe o processo e todo o sistema de transito de dados que transformam aquele acesso em dinheiro quando ela dá seu cartão para alguma pessoa mais esperta do seu lado na fila retirar sua aposentadoria seria impossível e assustador para a pobre senhora.

Celestino moleque franzino do sertão cearense ainda não sabe da existência do Google. Ao contrário dele, muitos têm o Google como Deus do mundo virtual, mesmo sem às vezes saber pronunciar seu nome corretamente, indo desde o “googli” a “gougo”. Este ser tão inocente realmente sobrevive sem o Google, ele desconhece sua utilidade e está entre poucos no mundo que não demonstrou interesse em perguntar algo a ele. Talvez se ele soubesse do seu fado talvez ainda colocasse na caixa de pesquisa: “Qual o sentido da vida?”.

Seu Pedro está preocupado com a roda de madeira do seu precioso carro de boi quebrada em uma das viagens a cidade mais próxima. Talvez ele tenha chicoteado muito forte um dos bois que devido ao estimulo impôs uma velocidade maior e isso fez com que a roda batesse mais nos buracos da estrada de terra e assim quebrasse. Acredito que se alguém chegasse na casa deste senhor falando de um carro de 450 cavalos de potência, aerodinâmica perfeita, freios abs, câmbio triptronic, rodas de liga leve aro 18, faz de 0 a 100 em 2,5 segundos, computador de bordo, ar condicionado digital e terminasse sublimemente dizendo que ele tem a maior estabilidade de eixos em pistas asfaltadas, ele dissesse que se a roda do seu carro de boi não estivesse quebrada ele o levaria a cidade e talvez na bodega do seu amigo Matias lá tivesse um desses.

Pergunto-me até quando continuaremos sob essa ilusão moderna, onde pessoas que sonham em ter energia elétrica em casa vivem ao lado de outras que trocam arquivos via Bluetooth. Muitos que ainda sonham descrentes com uma TV em cores, enquanto outros se preocupam em criptografar seus dados para que estes não sejam violados.

Tenho a esperança de que um dia Dona Maria faça todas as transações disponíveis nos terminais de sua agencia de forma rápida e prática utilizando seu cartão de chip sem pedir ajuda. Que Celestino descubra não só o Google, mas todas as maravilhas da internet sem, no entanto torna-se um devoto cego de um Deus virtual. E que seu Pedro se acostume com a direção hidráulica do seu carro novo comprado na concessionária do seu amigo Matias, e divirta-se com a praticidade de acelerar sem que para isso tenha que chicotear algo. Espero enfim que hábitos futuristas espalhem-se de fato e tornem-se parte do presente social.

Observando o Tempo

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