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arvore 

Uma vez me pediram amor

Entreguei minha alma

                           Pediram-me paz

                           Doe-lhes toda a minha tolerância

Precisaram de amigos

Fiz-me presente em todos os bons e maus momentos

                          Sentiram necessidade de esperança

                          Compartilhei meus sonhos

Quiseram coragem

Ofertei minha fé

                            Tiveram urgência

                            Queriam ser mais humanos

                                                                               Neguei.

Não posso dar-lhes meu coração

Esse que chora fácil

Órgão tolo

É por causa dele que entrego tudo que tenho de mais precioso.

Paixão, Amor e Tempo

maos-dadas

Um piscar de olho

Um beijinho no rosto

Um aperto de mão

 

Só isso minha paixão?

 Encontro marcado

Passeio de rosto colado

Um abraço

Um beijo roubado

Só isso minha paixão?

Dedos entrecruzados

Um abraço bem demorado

Um beijo de olhos fechados

E um pouco de amasso

Só isso minha paixão?

Uma mordidinha na orelha

Um escorregar de mãos

Um calor desenfreado

Dois corações acelerados

 

Só isso minha paixão?

Alguns presentes

Algumas declarações

Um tanto de ciúme

Ligações perdidas

Brigas

Desencontros

Saudades

Reconciliação

Amor, isso ainda é paixão?

Poesia em Papel-de-bala

24a

Escrevo sobre amor em papel-de-bala

Minha poesia é pobre não merece papel vergê

Mas o seu amor se foi?

Não, o amor ficou

Ficou incomodando

Pedindo uma poesia

Suplicando uma declaração

Matando-me de inspiração

Como depois de alguns outonos, sempre sobra um papel-de-bala

Escrevi desalinhadamente

Delicadamente formei versos

O papel é fino, não há rima

O espaço é curto, apelei para a métrica

Um espaço no final,

Fiz uma silenciosa dedicatória:

Ao amor que fez-me livre e poeta.

Não assinei

Meu amor sabe reconhecer meus versos

Sei que não espera encontrá-los retorcidos, um tanto amassados

Mas esse amor que falo

Ficará feliz ao entender:

Só o amor vivido intensamente pela alma cabe em um simples papel-de-bala.

Frase

Percebi que acordar exige mais que um simples abrir de olhos,

requer coragem para enrijecer os punhos e lutar contra a realidade moldada nos medos que perseguem os meus sonhos.

                                                         Mário Rodrigues

No interior

O povo acorda cedo

Engole café preto com pedaço de pão seco sem recheio

Pedem a benção aos santos que posam nos quadros

Uns conversam sobre o tempo: Cadê as chuvas de janeiro?

Varrem o terreiro

Outros vão a cidade

Chapéu, saias bem passadas, camisa cambraia,  perfume bem guardado, daqueles só usado  nos batizados e nos dias de aniversário

Caminhonete, carroça, bicicleta e jumento bem celado, no interior é melhor que metrô e ônibus lotado

 

O trânsito na cidade segue sem congestionar, o bode e cahorro nem olham para os lados na hora de atravessar

A prefeitura abre as portas

O som da igreja começa a anunciar, de falecimento até nome do povo que vai casar

O povo passa na budega, se pesa na farmácia

Na volta se pesa na farmácia e passa na budega

Vida corrida essa

Interior -  Mafra - (Foto - J.C. Grein Xavier)

Se chegar cedo dá tempo ir no posto para se consultar,

Aqui menino tem doença que nem o melhor doutor  consegue tratar

Farnizim, quebranto, dor nos quartos

Agora vento caído tem que mandar rezar

Notícia boa aqui não sai na globo, vem da boca do povo

As últimas traições, quem foi preso e quem foi solto: tu num soube?

A língua que corta e a fofoca repassada é mais rápido que pesquisa no google

No interior

Táxi é carro fretado

Alternativo é carro de linha

Sobrado é primeiro-andar

Mansão é casa com portão na frente

Lazer é sentar na calçada

lotérica é banco

Esquina é sala de bate-papo

Ah! No interior tudo é na santa paz

Quase nada acontece

Quase todo dia é igual

A não ser o vento que às vezes muda de direção.

 

Tempos de Criança


Quero ser de novo criança
Quero correr e pular sem rumo
Segurar na mão do meu pai para não me perder no mundo
Quero falar besteiras e leseiras
Seguir inocente
Perder o primeiro dente

Fazer novamente a primeira comunhão
Dar beliscão e cutucão
Quero minha mesada de antes,
Dez centavos e um chiclete
Quero minha OPANCA e um pé pequeno
Segurar meu carro apenas com uma mão


Quero errar o contorno das letras
Falar pra tia: Presente!
Começar o ano pensando no caderno novo
Quero matar a fome no recreio
Desenhar um tigre ainda que com cara de coelho
Cortar o cabelo mesmo sem me ver no espelho
Até aceito ralhar de novo o joelho

Cair e levantar
Chorar e chorar e depois pedir para Jesus sarar
E assim reaprender a rezar
Andar de bicicleta achando que posso voar
Quebrar algo e minha mãe achar que foi culpa do gato
Falar meio alto
Tirar o sapato e andar descalço



Eu criança
Esqueço as responsabilidades
Caminho sem pressa
Sem perder a esperança
Refaço os planos seguindo com o mesmo coração.

Relatividade na Sorte e no Azar


O jogo entre a sorte e o azar acompanha o homem desde o início de sua vida, cercando-o de situações que para muitos limitam e resguardam, em alguns casos, a existência humana tão somente sob o conceito da casualidade. Talvez por ser a vida encarada, em sua maior parte, como um jogo, aplicamos os conceitos de azar, que às vezes, traz perdas, porém, instiga mudanças e, o de sorte, que quando não acumula ganhos, danos não causa.

Nasceu! Logo em seguida o homem se pergunta: azar ou sorte? Para os que vêem pelo lado da probabilidade, nascer, é o fato mais sortudo que alguém pode ter, afinal, você era um entre milhões em busca de um único óvulo e com inúmeras adversidades fisiológicas para enfrentar. Mas, alguns podem ver isso já como um grande azar. Nasceu! Pronto, agora prepare-se para viver, encarar problemas e dificuldades, sujeitar-se à pressões, dias eloquentes em busca da sobrevivência.

Contudo, outros podem entender que esses conflitos e dificuldades diários são implícitos do processo de existência e aí não adianta ser sortudo ou não, um dia possivelmente você acordará atrasado para trabalhar, tropeçará ao sair de casa, baterá o dedo ao fechar a porta do carro, fatos amenizados se você estiver atrasado para trabalhar na sua própria empresa, tenha tropeçado na mulher da sua vida ao sair de casa e o carro que esmagou seu dedinho seja importado, nesse caso o ponto de vista da casualidade transborda-se de relatividade.

Podemos dizer também que viver com dignidade, com casa, educação, saúde,comida e em uma família organizada, talvez seja mais que sorte. Certeza de azar mesmo seja nascer em um país em que dignidade é rara, as casas de papelão, a saúde morreu sem socorro e as famílias perderam a forma: mamãe solteira e papai preso ou pior mamãe e papai presos, mas ainda bem que vovó é aposentada, sorte!. A velhinha tem noventa anos, azar!

Para muitos, o sortudo tem perfil, ganha sem trabalhar, morre sem sofrer, mora em uma praia do Havaí. O azarado também é tipificado, não tem emprego, sofre muito antes de morrer e mora embaixo de um viaduto. A relatividade dos padrões de existência humana desperta contradições gigantescas de vidas, e tendenciados por isso buscamos explicar essas situações limitando-as a mera questão de sorte ou zar.

Assim, fugindo dessa imprecisa filosofia que privilegia o acaso e a predestinação, se regido pela sorte ou pelo azar, vejo o pobre tão digno quanto o rico, a mulher estéril tão fecunda quanto à mulher com oito filhos, o mudo tão capaz quanto o maior orador. E assim o que para uns trata-se de sorte ou azar pode ser
entendido como maneiras diferentes de transpor a mesma vida.
Percebo, enfim, que enquanto o homem, esse ser insatisfeito, continuar em busca da felicidade, os conceitos de azar e sorte, como tudo neste mundo, serão julgados pela lei da mutabilidade, ou seja, hoje aquilo o que para você é sorte ou azar, em algum momento futuro talvez deixará de ser, a partir do instante em que não agregue mais valor a completude da alma humana.

Pensamentos Dedicados




Ao tempo que passa, só digo adeus
Aos olhos que lagrimejam, um vento leve para secá-los
Ao beijo amargo, um doce abraço
Ao caminho, o primeiro passo


Ao amor que falta, a amizade completa
Ao sonho, a esperança eterna
Ao destino, a vida sem controle

Ao dia, o descanso da noite
Ao medo, a disposição
Ao silêncio, minhas poucas palavras
Ao universo, uma única explicação

Ao principio, o meio
Ao meio, o fim
Ao fim de tudo, o recomeço.

CURTO POEMA




Amo sublime

Cativo em ti

Amor de uma vida

Vida plena

Perpetua

Porém,

Nunca serei

Seu pecado.

Talvez um simples erro

Único erro

Amor sublime.

ALGO POSSÍVEL


Talvez um dia o poeta perca o rumo do lirismo, não fale mais de amor, da paz ou da amizade, e assim só nos reste como referência poética às românticas receitas de bolo e as rimas métricas dos manuais de instrução.

Talvez um dia os mares sequem e os navios percam sua função, não existam mais peixes para se pescar, a brisa que corre a beira da praia acabe e esqueçamos a frase “homem ao mar”.

Talvez um dia a gravidade cesse, assim flutuaríamos livres e não invejaríamos mais os pássaros, as companhias de aviação iriam à falência, perderíamos a noção de peso e medida, nunca saberíamos se estamos mais magros ou mais gordos e passaríamos mais tempo nas nuvens.

Talvez um dia o ar que respiramos acabe, a partir de então, não teríamos mais que estudar o processo de oxidação, os pulmões seriam desnecessários, não sofreríamos mais de doenças respiratórias, poderíamos escalar até mesmo os picos mais altos do mundo, passaríamos a usar o nariz só por estética.

Talvez um dia a perfeição seja alcançada, errar se torne uma palavra morta, não necessitaríamos mais de fé ou de um Deus, esqueceríamos as condenações, desempregaríamos juízes e advogados, seriamos seres sem sonhos, plenamente satisfeitos de ideais.

Talvez um dia tudo isso acabe por se realizar.

Mas o poeta que sempre busca a perfeição flutuando sobre os longos suspiros do mar

Dentre os mais absurdos dos talvez,

Tenha simplesmente pensado

Talvez ainda serei feliz.
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